E se eu não tiver nada pra dizer? Dúvidas comuns sobre começar uma análise
- Ligia Estanqueiros
- 29 de jul. de 2025
- 2 min de leitura
Medo, silêncio, repetição — e o que pode emergir no tempo da escuta
"A análise funciona?" Essa é uma pergunta legítima, especialmente quando o sofrimento aparece de forma confusa, sem explicação clara ou solução imediata.
Você talvez esteja se perguntando: “Será que psicanálise funciona mesmo?”

Essa é uma pergunta legítima e também difícil de responder de forma simples. Isso porque, diferentemente de métodos que visam eliminar sintomas rapidamente, a psicanálise propõe um mergulho no que nos move por dentro. Ela não oferece soluções prontas, mas um espaço para elaborar aquilo que, muitas vezes, nem conseguimos nomear.
Funciona? Sim, mas não como uma promessa de cura instantânea. Funciona na medida em que permite que algo de você, até então silencioso ou confuso, encontre palavras. Funciona quando começamos a perceber os sentidos ocultos dos nossos sintomas, as repetições que nos prendem, os desejos que foram sufocados — e isso começa a produzir transformações reais na vida.
Freud dizia que o sintoma é uma formação de compromisso entre um desejo recalcado e a tentativa do eu de manter o equilíbrio. Ou seja, o sintoma fala, mesmo quando não entendemos o que ele está dizendo. A análise é o lugar onde esse sintoma pode ser escutado e transformado. A análise é um processo. E como todo processo, ela envolve tempo, escuta e uma disposição para se confrontar com a própria verdade. Isso pode ser desconfortável. Pode doer. Mas há algo nesse movimento que liberta.
Muitos chegam dizendo: — “Não sei nem por onde começar.” ou “Acho que meu problema nem é tão grave assim.” E às vezes, depois de algumas sessões, vem a pergunta: “Mas e se eu não tiver nada para dizer? ” Será que vale a pena continuar?
Lacan dizia que a análise começa no ponto em que o sujeito se autoriza a falar, mesmo que não saiba bem o quê. O silêncio não é um obstáculo; ele pode ser um tempo de elaboração. Um momento em que a palavra ainda não se formou, mas está a caminho. Seguir comparecendo, mesmo sem saber o que dizer, pode ser uma das formas mais corajosas de sustentar o processo. Há escuta também no silêncio. E muitas vezes, é ali que emergem questões profundas que só apareceriam se houvesse tempo e espaço para isso.
A psicanálise não mede o sofrimento. Ela escuta. Escuta com ética, sem julgamento, sem pressa. E quando a escuta se dá, algo que estava estagnado pode começar a fluir.
No meu consultório, há um quadro com a frase: “Sentir dói. Mas cura.” Ela me acompanha como uma espécie de lembrança de que elaborar o sofrimento, ao invés de silenciá-lo, pode abrir caminhos.
Então, se você se pergunta se a análise funciona, talvez também esteja se perguntando se é possível viver de outro modo. Se algo em você já se inquieta com o que tem se repetido ou adoece diante do que não se diz, talvez isso já seja o começo. E começo, na análise, é sempre um gesto de coragem.




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